No laboratório de electrónica da Ford em Merkenich, na Alemanha, nada é bem o que parece ser… Aqui estão actualmente a ser testados mais de 40 veículos, mas não se avista nem um automóvel. Se tentar abrir um manípulo de porta trancado, o alarme é automaticamente activado, mas não se vê por aqui nenhuma porta. Até é possível ligar a ignição e ouvir o motor a arrancar, só que não há qualquer motor à vista.
Isto porque é nesta sala de 100 m2, situada no coração do Centro Técnico da Ford na Europa, que os engenheiros testam os sistemas electrónicos da nova geração do Focus, utilizando o que designam por “bancadas amarelas”. Cada uma destas bancadas integra todos os sistemas electrónicos que irão equipar as diferentes versões do novo Focus.
Numa extremidade da bancada, estão os faróis dianteiros, no meio o painel de instrumentos e o banco do condutor e, na extremidade oposta, os faróis traseiros. No meio de todos estes sistemas estão milhares de cabos e ligações, bem como mais de 40 módulos de controlo electrónico (ECU) que transmitem e recebem mais de 3000 sinais. Cada característica electrónica do carro está no respectivo lugar e totalmente operacional; a ignição, os sistemas multimédia, as luzes de cortesia, os bancos aquecidos. Toda a cablagem e módulos que equipam um verdadeiro automóvel estão devidamente montados, sendo expostos a rigorosos testes 24 horas por dia, 7 dias por semana.
David Weinrauch trabalha na Ford há 7 anos. Até este Verão integrava a equipa responsável pelos testes dos Sistemas de Segurança Activa. Actualmente é engenheiro de sistemas, responsável pelos sistemas electrónicos.
“Nas bancadas amarelas são executados mais de 10.000 casos de testes funcionais abrangendo os sistemas electrónicos dos equipamentos de conforto e segurança. Todas as características electrónicas de cada versão do veículo são testadas, em condições normais e extremas de utilização e, por último, em situações de avaria, como aquelas ocasionadas por variações de tensão ou curto-circuitos. É necessário garantir que essas características funcionem correctamente, em condições normais de utilização, e de forma segura se ocorrer um problema".
“Condução segura, inteligente e ecológica, foram estes os três objectivos que presidiram ao desenvolvimento do novo Focus, os quais envolvem um sem-número de sistemas electrónicos. “Condução segura” envolve características como o Aviso de Saída de Faixa e o Reconhecimento da Sinalização de Trânsito; “condução inteligente” abrange os sistemas multimédia e de info-entretenimento e, “condução ecológica”, tudo o que respeita à sustentabilidade, nomeadamente sistemas como a Grelha Dianteira com Sistema de Fecho Activo e o Carregamento Regenerativo Inteligente".
“Como o novo Focus é um automóvel genuinamente global, vai estar disponível em muitas versões e com um número considerável de características. Algumas dessas características, como o aviso sonoro que é activado quando a chave é deixada na ignição ou a bússola do módulo de instrumentos variam consoante os mercados, enquanto outras estarão disponíveis a nível global, o que para nós implica uma grande complexidade e também um grande número de testes.”
Sistema “Hardware in Loop”
A equipa responsável pelos sistemas electrónicos está envolvida no processo de desenvolvimento do produto desde o início, testando continuamente o software, módulos e hardware à medida que ficam disponíveis. As bancadas amarelas são apenas uma das várias ferramentas utilizadas para testar os equipamentos electrónicos. Outra ferramenta essencial tem sido o sistema HIL (Hardware in Loop).
“O sistema HIL permite-nos efectuar testes desde uma fase muito precoce, com a máxima segurança e de forma muito eficiente,” explica David Weinrauch. “Trata-se de um sistema activo, ao contrário das bancadas amarelas que são estáticas. Graças a este sistema, podemos fazer simulações de um carro em movimento, um carro virtual, obviamente, o que por sua vez nos permite testar os sistemas de apoio à condução e de segurança, bem como as características de conforto. São mais de 20.000 os testes automatizados que podem ser levados a cabo numa noite, por isso a actividade aqui nunca pára.”
Sentado à frente de dois ecrãs de computador, Andreas Giersiefer, engenheiro de testes, está a executar uma simulação do sistema Active Park Assist no novo Focus. Durante o teste, são transmitidos sinais reais aos módulos, que interagem entre si exactamente como o fariam num veículo real. No ecrã da esquerda, o carro avança lentamente à procura de um espaço de dimensões adequadas e, de seguida, faz marcha-atrás para estacionar. Os travões e acelerador são controlados pelo software e, a direcção, pelo módulo do Active Park Assist, tal como num automóvel real.
“Aqui, não realizamos testes de desempenho, mas sim testes de fiabilidade”, explica Giersiefer. "Nesta fase, não importa que o carro fique perfeitamente estacionado, apenas nos concentramos nos aspectos críticos relacionados com a segurança, pois é necessário garantir que, se ocorrer um problema num dos módulos de controlo electrónico, outro irá detectá-lo e intervir para resolvê-lo.”
Andreas Giersiefer dá então uma guinada no volante (que aparece no ecrã) para a direita, o que determina imediatamente o cancelamento do teste.
“Se o condutor acelerar demasiado ou der uma guinada no volante, o sistema deve parar e a manobra de estacionamento ser abortada, como ocorreria se surgisse um problema num dos módulos de controlo. Simulamos os problemas para garantir o correcto funcionamento de todos os sistemas,” acrescenta Andreas Giersiefer.
O sistema HIL, que é utilizado na Ford desde 2002, faz actualmente parte integrante do processo de desenvolvimento de todos os seus produtos. Contribuiu para tornar os testes mais exaustivos e rigorosos e ganhar tempo precioso. Além de disponibilizar os resultados dos testes mais rapidamente, este sistema permite testar um grande número de configurações, o que se revelou crucial no caso do novo Focus.
“Os testes que levamos a cabo contemplam todas as situações possíveis. Além da lista de testes standard que nos é entregue pelos fornecedores, dispomos de uma lista própria. Se considerarmos o número de novas tecnologias que equipam o novo Focus, tanto o sistema HIL, como as “bancadas amarelas” tiveram, sem dúvida, um papel essencial no seu desenvolvimento.”
22-12-2010